terça-feira, 7 de agosto de 2018


Do Papai Noel à Metástase

            Eu nasci e fui criado no interior de Goiás, em uma cidade de 25.000 habitantes chamada Posse. Tive uma infância sem shoppings ou cinemas, mas com muito contato com a natureza e com os meus 20 primos. No natal de 1994, nos reunidos na casa dos meus avós maternos para a ceia. Na época, eu tinha 5 anos e carregava uma enorme vontade de falar tudo o que pensava. O clímax daquela noite foi a aparição do Papai Noel durante o jantar. Eu estava empolgadíssimo com aquela presença, assim como os meus primos que tinham mais ou menos a mesma idade, até que percebi que a minha avó não estava mais no recinto. Comecei a observar bem aquele Papai Noel, sua barba branca, seu cabelo branco, gorro e roupas vermelhas... então, gritei “O Papai Noel é a vovó!”
            Todos os adultos se espantaram. Meus pais desconversaram e depois de alguns minutos, o bom velhinho partiu. Eu insistia que era, mas parecia que eu havia falado um palavrão, pois todos me olhavam com um certo desprezo. No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi questionar a minha mãe. Ela confirmou, “ele não é real”. Apesar dela ter me explicado todo o motivo pelo qual ele foi criado, eu senti aquilo como uma facada nas minhas vísceras. Embora aquela verdade tenha sido difícil de administrar no auge dos meus 5 anos, eu quis mais: “então, o coelhinho da Páscoa também não existe?” Também não, respondeu a minha mãe com um olhar de velório. Naquele dia, eu dormi muito mal, mas decidi contar a verdade para as outras pessoas (que tinham a mesma idade). No final de semana subsequente, estávamos todos os primos reunidos na casa dos meus avós e aproveitei a ocasião para libertá-los daquela mentira. No entanto, para a minha maior decepção, eles disseram que era eu quem estava mentido e um deles completou: “meus pais falaram que existe e eles não mentem”. Eu fiquei arrasado. Percebi que meus pares preferiam viver em uma ilusão do que aceitar a “verdade nua e crua”.
            Aquela história envolvendo o papai noel me deu uma enorme coragem para questionar qualquer coisa. Além disso, ela quebrou o paradigma de que eu deveria acreditar em tudo que “os mais experientes” afirmam. Só que eu me empolguei. Aos 6 anos, eu estava desenvolvendo uma noção sobre parentesco/hereditariedade, e cheguei a conclusão de que os meus pais não pareciam fisionomicamente comigo. Sem saber o que a genética mendeliana conta sobre os alelos raros, acusei os meus pais de terem me adotado. No começo, os meus pais riram, mas eu insisti tanto com o assunto que no mesmo dia, a minha mãe me levou ao hospital em que nasci para que todos dessem o depoimento que testemunhava a favor dela. “Eles estão todos comprados”, repeti a frase que ouvia ocasionalmente no "Aqui Agora" – um clássico da década de 90.
Nesse dia, eu tinha passado da conta. Mesmo para uma criança de 6 anos, era perceptível a tristeza de uma mãe que se sentia rejeitada pelo próprio filho. “Você é sangue do meu sangue, meu filho. Por que está fazendo isso comigo?” Esse diálogo nunca mas saiu da minha cabeça...
            Alguns anos depois, a minha avó materna falece com câncer de mama. Lembro de uma conversa entre os meus pais que contava, segundo o oncologista do Hospital de Base, que o câncer havia se espalhado e que não havia tratamento para isso. No dia após o velório, eu contei no ouvido da minha mãe, que eu iria estudar porque “aquilo” matou a minha avó. Naquele momento, eu descobri como utilizar a minha vontade de investigar/pesquisar sem machucar as pessoas. Muito pelo contrário, ajudando-as. Então, naquele dia eu aceitei a missão de ser um cientista.
Desde então, eu persigo a metástase do câncer de mama como aquele que busca vingança, mas ao mesmo tempo, como aquele que quer dar esperança a todas as famílias que sofrem com esta doença. 

quarta-feira, 25 de julho de 2018


Para ser um Cientista

por Bruno Pires

Uma vez me perguntaram o que era preciso para ser um cientista. Eu pensei, pensei... demorei mais do que a pessoa que perguntou gostaria de esperar, então, disse que era a “coragem”. "Coragem?!", perguntou. Talvez ela esperasse "o conhecimento" ou "a dedicação como resposta".
Após um ano sem escrever, este é o texto de meu retorno e através dele, pontuarei sobre a Coragem do Cientista.
Durante o período do vestibular, precisamos escolher uma profissão como se nunca mais pudéssemos mudar esta escolha, o que mais parece uma sentença do que uma entrada no ambiente acadêmico. Neste momento, a maioria é jovem e por falta de autonomia financeira -na minha opinião-, são reféns do julgamento dos pais e de familiares. Além disso, “o sistema” já está viciado em carreiras “ditas como bem-sucedidas”, o que acaba gerando no senso comum a crença de que é possível “chegar lá” através destas. Algumas outras profissões também são toleradas, mas, diga aos seus pais que pretende cursar Biologia ou Química ou Física, por exemplo.
Escolher uma carreira científica é uma enorme demonstração de coragem, assim como ser um músico ou um artista plástico, por exemplo. Eu já ouvi que cursando Biologia, eu “morreria dentro de uma sala de aula”. Respondi que seria uma enorme honra morrer como um educador.

Em qualquer reunião de família, o cientista será menosprezado.

Um amigo próximo foi recentemente aprovado para o doutorado e em um dos almoços de domingo, uma tia mencionou que seu filho estava concluindo a graduação em medicina e que seria um doutor em breve, enquanto, meu amigo, ainda que fosse formado, precisaria de mais quatro anos para ser um doutor. O problema dessa situação é que “doutor” é diferente de “doutor”. O termo utilizado pela tia, é uma convenção social herdada do Brasil colonial. Para outros, qualquer pessoa “graduada” é chamada de “doutor”, e por isso, você verá este título em muitos jalecos por aí (erroneamente). Já o doutorado que meu amigo está fazendo, é o mais alto grau de titulação da formação acadêmica. Fazendo uma analogia ao sistema militar, enquanto o filho da tia entra Soldado e sai como um Cabo, seu sobrinho, que já é Cabo, sairá como um General. A distância é absurda! Mas talvez fique mais claro quando explicamos através das patentes do exército, porque o conhecimento sobre o exército é mais próximo das pessoas do que o conhecimento sobre a formação acadêmica.
Para aqueles que pretendem continuar a formação acadêmica após a graduação, existe a pós-graduação. Esta é dividida em duas categorias: pós-graduação lato sensu (do latim, sentido amplo) e pós-graduação stricto sensu (do latim, em sentido estrito).
A duração da pós-graduação lato sensu varia entre 1 a 3 anos e apesar do título de “especialista” para quem a conclui, a formação é muito mais generalista do que a stricto sensu. Exemplos da pós-graduação lato sensu são os cursos de MBA (Master Business Administration) e as residências médicas e de outros profissionais de saúde.
A pós-graduação stricto sensu consiste nos cursos de mestrado e doutorado, com duração média de 2 e 4 anos, respectivamente. Para aqueles que pretendem se capacitar ao máximo, é importante passar pelas duas etapas, o que leva 6 anos após o tempo da graduação. Dessa forma, alguém que entrou no curso de Biologia aos 18 anos e concluiu a graduação aos 22, possivelmente, terminará o doutorado aos 28 anos se tudo correr bem. E é nesse período em que o cientista paga um grande pedágio social por ter quase 30 anos, possuir o título de doutorado e ser um desempregado.
 
“Mas você estudou tanto...”
 
O que ainda não sabem é que rotineiramente, inalamos compostos tóxicos como Fenol e Clorofórmio, que corremos o risco de perder a visão com o Metanol, ou a mão com o Ácido Sulfúrico, e que temos contato com o composto mutagênico Brometo de Etídio. Nem preciso mencionar os isótopos radioativos que muitos cientistas ainda precisam utilizar. O ponto que eu queria deixar aqui, é que durante os anos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, nós não recebemos nenhum adicional de insalubridade ou de periculosidade, pois mesmo com 10 anos de exercício da ciência, não somos cobertos pelas leis trabalhistas, já que não somos empregados. Ou seja, a coragem que falei não é somente para enfrentar a opinião alheia, mas também para arriscar a própria saúde em prol da Ciência.
Durante o meu primeiro ano de doutorado, eu tinha 24 anos e estava empolgadíssimo com a minha pesquisa que envolvia a biologia molecular da metástase – responsável por 90% das mortes em câncer de mama – até conversar com um amigo da família sobre os meus planos. Ele me jogou um balde de água fria. Disse que eu não estava fazendo uma escolha correta, pois entraria no mercado de trabalho com quase 30 anos, enquanto os meus amigos já teriam um carro e uma boa condição de vida. E de forma nostradâmica, ele acertou. A única coisa que o “amigo da família" não pensou é que a forma como os cientistas veem o mundo, não traz valor a maioria das coisas que “o sistema” impõe. O que será que o tal “sistema” pensa sobre muitas pesquisadoras que relatam não desejarem filhos? Ou de um pesquisador que se recusa a usar camisa polo ou social para trabalhar? O que será que ele pensa do casal de cientistas que prefere investir em suas viagens pelo mundo a comprar um apartamento?
Ser cientista é questionar-se e questionar o “sistema”. É não ceder aos padrões. É andar na contramão para sustentar as suas convicções. E para isso, caro amigo, cara amiga, é preciso ter muita CORAGEM.